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Me casei com alguém diferente de mim: e agora?

casamento

As relações humanas exigem algum exercício de reflexão para funcionar bem. Seria ótimo se tudo corresse bem de forma automática, não é? Mas não é assim que ocorre na realidade. Seja no trabalho, na vida social, na família, cada um precisa pensar, refletir sobre o papel pessoal no contato com o outro. É verdade, isso pode cansar. Mas também é possível cansar menos quando aprendemos a funcionar melhor e incorporamos novos comportamentos com o aprendizado de maneira que ele vai se tornando mais natural.

No casamento, por exemplo, há desafios difíceis para ele funcionar bem. Afastar-se, aproximar-se, falar, não falar, tomar uma atitude firme, abrir mão da opinião, são comportamentos opostos e precisamos de sabedoria para saber quando aplicar um ou outro no dia a dia da vida conjugal. Parece que é um aprendizado que não acaba nunca. Parece que não há uma formatura nisso, ou seja, parece que não chegamos nunca a um dia em que, finalmente, podemos dizer: “Ah! Agora sei tudo sobre como me relacionar com meu marido/minha esposa!” Parece que sempre sabemos só em parte.

Homem e mulher são diferentes na maneira como funcionam num relacionamento afetivo, seja namoro, noivado ou casamento. As diferenças não se limitam somente ao fato de um ser macho e outro fêmea, mas depende da sensibilidade, da história da infância, da vulnerabilidade, do tipo de vínculo que cada um faz com outros, dos traumas já vividos, do quanto está na realidade ou na fantasia quanto ao amor, etc.

É intrigante como que é comum haver uniões de pessoas com gostos, desejos e forma de funcionar tão distintas! Um pode gostar de sexo uma vez ao mês e se casa com alguém que quer sexo três vezes por semana. Outro gosta de falar baixo e se casa com alguém estridente. Um marido pode ser frio e calculista e se casa com uma mulher emocional demais. Ou uma mulher mandona se casa com um homem passivo. Um veio de uma família em que tudo era comemorado junto com muita comunicação, e se casa com outro que veio de uma família em que só se encontram em funeral ou só se falam em datas específicas no ano, como Natal e aniversário de alguém. Como vai dar certo? Como harmonizar isto? Dá para harmonizar?

Não, não dá para harmonizar em tudo. Em algumas coisas sim. Por exemplo, um marido introvertido se casa com uma esposa extrovertida. O marido gosta de estar só com a esposa em casa, no lazer, e se sente bem pensando, lendo, caminhando sozinho pelo parque ou areia da praia. A esposa gosta de receber pessoas em casa, gosta do agito, de muita conversa com todos, gosta de ser o centro das atenções onde chega. E agora? Se ele se esforça para sempre estar no agito dela, ele se anula e sofre. Se ela se esforça para sempre estar na quietude que ele adora, ela se frustra e sofre. Que fazer?

O jeito é conversar e tentar chegar num meio termo em que em alguns momentos cada um estará participando do que o outro prefere e em outros momentos cada um estará sozinho curtindo a sua preferência. Mas e se a pessoa que gosta da vida social agitada disser que fica sem graça estar ali sem o cônjuge? Talvez uma solução seja o cônjuge quieto ficar no agito mas na lateral, num canto sossegado com pessoas que tem o perfil de introversão e que, assim, não é uma ameaça e chatice para ele. Assim, ao mesmo tempo ele estará ali com o cônjuge extrovertido e se sentirá mais confortável ao não ter que estar com os holofotes em cima.

Negociar nos relacionamentos, especialmente no casamento, é fundamental. Entretanto, é muito importante que cada um acabe com a tendência de ser melindroso(a) e pare com o papel de “ele(a) não me dá a atenção que eu queria”, e aceite que a harmonia conjugal não depende de um ter que se anular para se enquadrar no perfil do outro. O cônjuge carente precisa parar com a ideia de “se eu faço tudo o que você quer, por que você não se torna o que eu quero?”. Primeiro, se você vive fazendo o que o outro quer, isto é amor ou é autoanulação? É amor ou é manipulação? É para demonstrar amor ou para receber amor?

A sabedoria na relação conjugal e em outros relacionamentos requer uma dose equilibrada de não quebrantar suas convicções, abrir mão em certos momentos de sua vontade, não perder a individualidade, andar a segunda milha, dizer o que pensa, ficar calado, colocar limites firmes para os abusos emocionais , ser compassivo e usar de misericórdia, falar com firmeza para quebrar a falta de desconfiômetro do parceiro, etc. Isto pode cansar? Pode. E cansa mais quanto mais o outro (ou você) tem a mente fechada, não quer dialogar, não quer mudar, não abre mão do romance idealizado, fica obcecado por afeto e aprovação, etc. E pode ser agradável quando cada um pode pensar, analisar seu próprio comportamento, estar disposto a fazer concessões quando isto couber, sair da defesa rígida tipo “eu sou assim, você me conheceu assim e não vou mudar” e conversar sobre estes assuntos. Sem isso o que ocorre é tensão.

Dr. Cesar Vasconcellos de Souza

Autor: Dr. Cesar Vasconcellos de Souza

Dr. Cesar Vasconcellos de Souza, médico psiquiatra e psicoterapeuta, membro da Associação Brasileira de Psiquiatria, membro da American Psychosomatic Society, consultor psiquiatra da revista Vida & Saúde onde mantém coluna mensal, professor de Saúde Mental, visitante, do College of Health Evangelism e "Institute of Medical Ministry" do Wildwood Lifestyle Center and Hospital, Estados Unidos, Diretor Médico do Portal Natural, autor dos livros "Casamento: o que é isso?" e "Consultório Psicológico".

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